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Capítulo 40: Freios de Emergência em Cascais, Portugal

5 de nov. de 2025
5 min de leitura

Tudo começou quando mais um alerta do "Comando da Defesa Civil" se misturou ao irritante som de "ding" do aplicativo de mensagens. De repente, fiquei sem saber se devia entrar em um espaço protegido ou simplesmente deletar meu perfil do universo.


Há muito tempo que abandonei todos os aplicativos de namoro. Não tenho paciência para "matches" superficiais. Mas o Messenger continua sendo o último campo de batalha — legiões de perfis falsos, a maioria casados, ou apenas fotos genéricas, mensagens enigmáticas de pessoas que nunca conheci e toda aquela interferência que sufoca o pensamento.


Aqui em Israel, o ar ficou pesado demais. Está repleto de "liberações" de partir o coração e discussões de estúdio que queimam a cabeça. Me peguei encarando o teto à noite, exausto do esforço de distinguir entre uma mensagem real e um bot iraniano tentando me atrair para uma conversa sobre "a situação". Sentia como se vivesse em constante "espera", um redator da vida de outra pessoa, enquanto minha criatividade se afogava em um mar de tensão implacável. A fadiga era total; não uma fadiga da alma que o sono pode aliviar, mas uma que só o oceano pode lavar.


"Chega", pensei ao finalizar mais uma campanha no trabalho, sentindo que eu era quem precisava de um freio de emergência. Decidi me tornar um nômade digital com a Pazm. Vasculhei mapas, li blogs e me fixei em


Vou escrever. Chega de slogans à venda — vou realizar o sonho da minha vida: ser uma escritora aventureira em meio a calçadas brancas e o dourado líquido dos pores do sol.


E o mar lá... O mar em Cascais não é o nosso Mediterrâneo sonolento. É um oceano. É lírico, selvagem e respira ao ritmo de uma baleia gigante. A água lá é pintada de um azul profundo, quase tinta, e quando se quebra contra as falésias transforma-se em espuma branca e renda que se espalha ao vento. A luz do pôr do sol não é apenas amarela, é ouro líquido que se absorve nas paredes das casas brancas, e o cheiro de sal mistura-se com o aroma dos pinheiros centenários. É um mar que nos lembra o quão pequenos somos e, precisamente por isso, nos dá permissão para simplesmente sermos.


Já me imagino sentada na Praça da Cidade Velha, com o ar cheirando a sal e café fresco, e todo o meu cinismo em relação a Tel Aviv se desfazendo.


Manuel estará lá, o guardião do meu tempo perdido. Ele estará sentado com sua camisa de linho azul-celeste e óculos de leitura pendurados em um cordão dourado, e eu me aproximarei dele com o meu português — aquele que guardei no fundo da alma por anos, como uma arma secreta para o dia do juízo final. Quando ele levantar os olhos para mim, sentirei como o meu ritmo israelense acelerado freia diante do seu silêncio. Ele me falará da Cascais de antigamente, de quando os reis viviam aqui no exílio, e descreverá a renda dos vestidos das mulheres em um português quebrado e rico. Ele será o meu mestre do silêncio. Ele falará de reis exilados e eu pensarei comigo mesma que, na minha terra, os reis gritam com quem passa na rua; mas aqui, diante dele, a história não é apenas uma ferida, é uma nostalgia bonita em que a gente pode se envolver. "Seu pulso está rápido demais", ele me dirá com uma reprovação gentil, "em Portugal, as palavras precisam de tempo para amadurecer, como o vinho". Ele dirá, e eu anotarei para mim mesma: Aprender com Manuel a respirar antes de cada vírgula.


Na Boca do Inferno, encontrarei o oposto absoluto de Manuel - o Tiago. Ele estará lá descalço, com uma prancha de surfe velha e o cabelo que o sol e o sal tornaram claro, como se tivesse sido moldado pela espuma das ondas. Ele vai rir quando me vir carregando o laptop diante da força da maré. "As palavras não se capturam dentro de uma máquina que precisa de carregador", ele me dirá, "você deixa que elas te molhem". Olharei para as rugas do seu sorriso e pensarei em todos os anos em que tentei "gerenciar" a mídia, enquanto a vida estava lá fora, esperando que eu simplesmente fosse. Tiago será o meu romance leve, o homem que me ensinará que o meu corpo não é apenas um veículo para carregar a minha cabeça preocupada.


E de repente, em meio a essa serenidade, aparecerá o Ricardo, o brasileiro do Rio. Não o vejo há anos, desde a última vez que estive em Portugal, jovem e inquieta. Ele ainda está lá, em Lisboa, guia de turismo com um tuk-tuk amarelo e um ritmo de vida que não acaba nunca. Ele saberá que estou em Cascais e chegará em uma corrida louca com o seu tuk-tuk, só para quebrar a própria rotina exaustiva. Sentaremos no cais; ele tirará os óculos escuros e abrirá um sorriso de "Saudade" — aquela famosa saudade portuguesa. "Querida", ele me dirá, "meu tuk-tuk circula pelas mesmas ruelas há uma década, mas você? Você parece ter encontrado uma ruela nova dentro do seu coração". O encontro com ele será a minha ponte entre o passado e o presente, um lembrete de que o tempo passa, mas a conexão humana permanece imune a qualquer fake news.


Mas o verdadeiro silêncio virá na manhã em que eu ouvir um suspiro familiar demais em um café com vista para a marina. Será o Itai. Ele terá 62 anos, com olhos sábios e um laptop cheio de adesivos de empresas de tecnologia que já foram deslistadas da bolsa há muito tempo. Olharemos um para o outro e entenderemos tudo; ambos refugiados da mesma loucura. Com ele, não precisarei explicar por que dou um pulo com qualquer barulho de moto. Ele será o meu "porto seguro" no exílio, mas um porto silencioso, sem o ruído branco. Sentaremos por horas e escreveremos juntos, cada um em um lado da mesa, e entre um parágrafo e outro falaremos sobre as vidas que tivemos, e sobre como chegamos até o fim do continente apenas para, finalmente, nos sentirmos vivos. Com ele, será um romance maduro, de duas pessoas que reaprendem a se apaixonar pela manhã, sem Messenger, sem mensagens exaustivas e sem fakes.


Quando eu estiver travada no terceiro capítulo, irei à galeria da Maria. Ela estará lá, envolta em lenços de seda, com a voz rouca de cigarro, me dizendo que em Israel aprendi a temer a morte, mas aqui preciso aprender a temer a vida — porque ela é tão bonita que pode me quebrar. Ela será o meu espelho, a mulher que me obrigará a fechar o retângulo iluminado do laptop e ir cheirar os peixes no mercado. Porque uma escritora não "trabalha"; uma escritora precisa sair e respirar a vida em vez de apenas documentá-la.

Então aqui estou eu, Qashqaiş, eu venho!


Às calçadas de pedra, a Manuel e Thiago, a Ricardo e seu tuk-tuk, a Itay, que me esperava ao pôr do sol. E a Maria, quando eu precisava de forças.


Israel, cuide-se. Vou buscar a paz entre as ondas.


Cascais, vista-se e prepare o vinho - a escritora chegou e acaba de ativar o "modo avião" do seu mensageiro permanentemente.


Capítulo 40: Freios de Emergência em Cascais, Portugal
Capítulo 40: Freios de Emergência em Cascais, Portugal

 
 
 

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