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Capítulo 37: O Diário de uma Espiral (ou: A Sutil Arte da Hérnia de Disco Moral)

  • 8 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 25 de abr.

O público sempre aplaude quando vê uma mulher flexível espremida em uma caixa pequena demais. Chamam isso de "virtuosismo". Eu chamo de "a história dos relacionamentos com homens casados".


Aos 68 anos, já tendo visto de tudo, das praias da Bahia aos bares de Tel Aviv, eu esperava que minha mente fosse tão fortificada quanto um bunker nuclear. Mas não. Por dentro, acontece uma batalha neuropsicológica de atrito entre duas personagens que se detestam:


O Big Bang: A Teoria da Dobra Espacial


Para ser a "amante ideal" de um homem casado e atormentado, você precisa dominar a arte do encolhimento. Você pega toda a sua personalidade — suas opiniões políticas, seu cinismo, o fato de saber explicar exatamente como funciona o motor híbrido de um Volkswagen — e as dobra para dentro.

Libi (O Coração): "Olha para ele! Parece um modelo da Rolex em um dia ruim. Ele está atormentado, está sozinho, está procurando uma 'alma gêmea'! Vamos nos dobrar dentro da mala dele; vamos ser o lugar tranquilo onde ele pode descansar da esposa, dos filhos e da conta de luz!"

Gigi (O Freio): "Para tudo! De acordo com a Lei da Conservação de Energia, você está prestes a desperdiçar uma quantidade absurda de oxigênio com alguém que te usa como um 'ambiente de suporte' temporário. Segundo a Teoria dos Jogos, ele está numa situação Win-Win (sexo e emoção sem perder a casa), enquanto você é uma acrobata com gangrena nas pernas. Você quer mesmo ser o 'projeto' dele?"


A Cena: O Primeiro Encontro (Dissonância Cognitiva em seu Ápice)


Estamos sentados em um bar mal iluminado. Ele cheira a culpa cara. Ele pede vinho tinto; eu peço problemas.

Ele: "Eu sou uma pessoa boa, Yael. De verdade. Eu amo minha esposa, mas... com você, sinto que finalmente posso respirar."

Gigi: "Bling! Aí está. Racionalização clássica. Ele está usando o sofrimento dele como lubrificante moral. Segundo Freud, o 'Superego' dele está em queda livre, e ele tenta convencer você e a si mesmo de que isso não é 'traição', é 'respiração'. Diga para ele fazer ioga se quiser respirar."

Libi: "Cala a boca, sua velha amarga! Olha as mãos dele! Ele está tocando meu joelho e minha amígdala inteira parece um show de fogos de artifício do Réveillon! Quem se importa com racionalização? Eu quero ocitocina agora!"


O Evento Principal: Anatomia da Queda


Conforme a noite avança, ele se torna mais "conflituoso". Fala de seus valores, sua moral e o quanto é difícil mentir. "Sinto que estou traindo quem eu sou... isso me corrói por dentro."

Gigi: "Ele não está traindo quem é; ele só está curtindo o drama. Segundo a teoria do Narcisismo Secundário, ele está apaixonado pelo próprio reflexo nos seus olhos como um 'homem trágico e atormentado'. Ele não vê você, Yael. Ele vê um palco."

Libi: "E daí? Pelo menos esse palco está recebendo atenção! Sabe quanto tempo faz que ninguém olhava para mim assim? Essa mala pode ser apertada, mas é quentinha!"


O Fim: Saindo da Caixa


Ao final do espetáculo, quando ele volta para casa, para a "vida real", e eu fico com torcicolo, a acrobata rasteja para fora da mala. Ela alonga os membros e ouve a fria verdade da neurobiologia: a dopamina cai e o cinismo sobe.


Você não consegue ser a "mulher incrivelmente flexível" e a "mulher inteligente que não cai na própria conversa fiada" ao mesmo tempo. É a prova viva da Teoria Quântica: no momento em que você observa a relação de verdade, ela colapsa.


Olho a mensagem dele às 2h da manhã: "Pensando em você". Gigi deleta. Libi chora um pouco. E eu? Só peço uma massa. Pelo menos ali, os carboidratos não prometem que estão "conflituosos".


O Diálogo Final: A Explosão Quântica (Ou: Por que esta mala não fecha mais)


São 2h45 da manhã. O celular vibra no criado-mudo como uma bomba-relógio de dopamina barata. A mensagem clássica aparece na tela: "Não consigo dormir. Minha consciência me mata, mas o pensamento em você me dá vida. Preciso te ver amanhã."

Dentro da minha cabeça, a arena está pegando fogo.


Gigi (Lógica): (Boceja com desprezo) "Lá vamos nós. A Teoria da Vítima Atormentada. Ele quer que você seja o Advil da consciência dele. Ele 'precisa te ver' porque o ego dele precisa de recarga, não porque ele pretende sair de casa."

Libi (Libido): (Com voz fraca, quase se rendendo) "Mas... olha como ele sofre... é quase romântico, não? Como naqueles filmes antigos, quando o homem ficava na chuva, dividido..."

Gigi: "Isso não é chuva, Libi. É um vazamento nos seus padrões. Olhe para ele através da Teoria da Troca Social. Ele investe o mínimo (um SMS de madrugada) e espera o máximo (uma acrobata numa mala). É hora de abrir o zíper."

Sento na cama, acendo um cigarro (metaforicamente, porque a saúde vem primeiro) e digito.

Eu: "Escuta. Essa mala ficou pequena para mim. Tentei me dobrar, juro. Fiz um espacate mental que fez toda a minha psicologia estalar, mas acabou o meu talco."

Ele: (Responde instantaneamente, seu Condicionamento Operante no auge) "Yael? O que aconteceu? Achei que você me entendesse. Achei que tivéssemos uma conexão além da moral convencional."

Eu: "A conexão existe, mas é uma via de mão única. Segundo a Teoria da Entropia, este sistema caminha para o caos. Você está em conflito em casa, e eu estou em conflito dentro de uma caixa de chocolate amargo às 3h da manhã. Isso não é conexão; é erro de engenharia."

Ele: "Eu faria qualquer coisa por você! Só não diga que acabou."

Eu: "Qualquer coisa? Ótimo. Traga um caminhão. Não uma mala — um caminhão. Um que tenha espaço para todas as minhas perguntas, meu cinismo e o fato de que não aceito ser o 'segredo' atormentado de ninguém. Você consegue ser um acrobata à luz do dia? Sem a rede de segurança de uma esposa esperando com o jantar?"

Ele: (Longo silêncio. Sua Dissonância Cognitiva travou o sistema inteiro). "Yael... você sabe que é complexo... os filhos... a hipoteca... meus valores..."

Gigi: (Num grito de vitória) "Bingo! Ele está investido demais na vida confortável para pular. Ele quer que só você faça as acrobacias."

Eu: (Digitando as últimas palavras, Freios e Libido unidos num chute só) "Querido, estou pedindo as contas do circo. Esta mala está sendo 'Devolvida ao Remetente' com todo o seu tormento dentro. Encontre uma acrobata iniciante; eu já passei para o show solo. Com luz total. E muito espaço para as pernas."

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Aperto o 'Bloquear'. Por dentro, silêncio. A Libido vai dormir, um pouco triste, mas satisfeita. Os freios são liberados. Meu cérebro volta ao estado calmo de análise de dados. A acrobata saiu da caixa. E nem sequer suou.


Capítulo 37: O Diário de uma Espiral
Capítulo 37: O Diário de uma Espiral

 
 
 

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