Capítulo 32: Tremores nos dedos: Quando a consciência toca a consciência
Vamos falar um pouco sobre ironia. Comecei este blog como um diário de uma jornada repleta de encontros desastrosos, café gelado no Dizengoff e homens que achavam que "E aí, tudo bem?" era uma forma legítima de iniciar uma conversa. Chamei-o de "Tinder - Cinquenta Tons de Cinza, em Cabelo". E aqui estou eu, descobrindo que a vida é a própria encarnação do dinamismo.
O algoritmo do Tinder e eu nos separamos, não como amigos. (Ele queria que eu aprendesse a selecionar pessoas, eu queria encontrar o amor.) Hoje, esses aplicativos me parecem um mundo antigo e distante, quase arqueológico.
Pronto, acabou. Os ícones de chama laranja foram apagados e meu dedo não desliza mais automaticamente para todos os homens com um peixe na mão ou óculos escuros na casa.
Mas não se enganem, eu não me retirei para um mosteiro. Simplesmente me mudei para o "mundo subterrâneo" que fervilha sob a superfície da rede social mais "burguesa" da região: o Facebook.
Para ser sincera, estou bastante confusa. Escrevi três capítulos e meio sobre o baile de máscaras. Fui cínica. Critiquei duramente a vida deles. Me defendi, justificando todo o meu segredo.
Apenas um mês imerso no mundo de "Fiction", e sinto como se tivesse aterrissado em outro planeta. Quem diria que por trás das imagens de bolos de Shabat, ou de uma selva tropical em algum lugar, se escondia uma selva de identidades falsas e dramas em escala grega?
A busca pela "felicidade em sua essência"
Parei de procurar por "relacionamento". Essa palavra, com toda a sua carga negativa, de repente parece um terno três números menor do que o meu. Não quero mais "alguém", quero momentos.
Me vi em diálogos que eram verdadeiras obras de arte feitas de palavras, com pessoas que eu jamais reconheceria na rua.
Descobri que por trás de perfis com uma foto genérica de paisagem, estão escondidas as pessoas mais fascinantes que já conheci. São perfis falsos, mas provavelmente são as pessoas mais honestas que já encontrei. Porque quando você usa uma máscara, de repente se atreve a contar toda a verdade.
Quando o Véu é Levantado: As Palavras se Tornam Carne
O mais incrível nesse submundo é quando o véu se levanta um pouco. Não são vigaristas nigerianos em busca de dinheiro; são pessoas fragilizadas, sonhadoras ou simplesmente solitárias, usando uma identidade falsa para se conectar com alguém. Conheci um desses "falsos" que se apresentou como gerente de produto em uma respeitada empresa de tecnologia, mas nas conversas noturnas, quando as defesas estavam baixas, ele revelou a vulnerabilidade de uma criança que só quer que alguém a ouça.
Ali compreendi o poder cósmico da palavra. Como uma sequência de letras numa tela se transforma numa emoção real e física que aperta a garganta.
As palavras não são apenas um meio de comunicação. Elas se tornam a arquitetura da minha realidade. Quando ele me escreve: "Eu te sinto através da distância", eu realmente sinto uma mão virtual acariciando a minha nuca. Meu cérebro não distingue entre verdade e ficção; para ele, essa emoção é matéria-prima viva e crua.
A tempestade entre as linhas
E então acontece. O momento em que as palavras se tornam matéria e a tela começa a queimar. Nesse submundo, vivi uma tempestade emocional e sexual diferente de qualquer encontro polido em uma cafeteria. Tudo começou com uma conversa noturna com um homem de perfil enigmático, sem rosto, mas com uma linguagem que penetra na pele. Sem contato físico, fui sugada por um vórtice de paixão intelectual que se transformou em paixões viscerais.
Suas palavras remodelaram meu corpo. Cada descrição, cada sussurro digitado, criava uma intimidade nua e desinibida que nenhum toque de mão poderia igualar. Era uma experiência cósmica. As palavras criavam uma excitação sexual refinada, livre da confusão da realidade, do constrangimento do corpo adulto.
Ali, entre as linhas, eu era mais bela e mais viva. Senti meu pulso acelerar, percebendo que a consciência pode tocar a consciência com um poder que abala todos os sentidos.
A Água Roubada e a Sede de Verdade
Então, quem sou eu em tudo isso? Descobri que sou uma mulher sem idade, que já viu de tudo, atraída pelo prazer inerente a essa emoção. É um prazer inebriante, quase proibido.
Há algo viciante nessa caça às palavras, saber que alguém do outro lado da tela está ansioso por causa de uma frase que escrevi às 2 da manhã. É pura felicidade, mas quanto mais intensa essa emoção, mais pesadas se tornam as reflexões.
Fico me perguntando: qual o verdadeiro propósito de toda essa "água roubada"? Não estaria eu, neste universo paralelo, apenas perpetuando a distância daquilo que realmente almejo? Do amor verdadeiro? Um amor que eu possa tocar, sentir o cheiro da sua pele, saber que a pessoa à minha frente é completamente, 100%, livre para me amar. Não como mais uma experiência entre tantas em seu mundo sombrio, não como uma fuga temporária da sua realidade, mas como um centro.
À medida que se torna o centro dos meus pensamentos e anseios, preciso me perguntar se não estou construindo palácios de dança. Será que esta vida só é "real" para mim enquanto a tela está ligada?
A emoção é imensa, mas o preço é a constante dúvida: será que estas palavras algum dia se concretizarão, ou estarei a condenar-me a viver numa história bela e turbulenta, onde o amado é sempre, no fim, apenas um reflexo das minhas próprias palavras?




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