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Capítulo 15: Até a intuição de uma bruxa precisa de óculos às vezes.

  • 4 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 3 de fev.

Ok, parem tudo. Deixem de lado a pipoca que vocês estavam comendo enquanto ouviam as histórias dos avarentos que pediam água da torneira com metade leite e metade água, ou daqueles que achavam que o sol batia no lado errado das costas.


Este episódio não é mais uma comédia romântica fracassada; é o momento em que percebi que o Tinder não é apenas um parquinho com balanços enferrujados, mas uma floresta escura onde o lobo não só se veste de vovó, como também vende ingressos para sua palestra sobre "empoderamento feminino na terceira idade".


Muito bem, sou Yael. Formada em ciências comportamentais, com uma intuição que faria as bruxas de Salem empalidecerem de inveja, e a experiência de vida de três mulheres divorciadas e um gato. E com todo esse currículo magnífico, eu caí. E não foi por acaso, dei uma cambalhota para trás num buraco que me contratou não qualquer idiota, mas um psicopata com diploma.


Ato Um: A Tentação (ou: Como Engoli a Isca, a Vara e as Botas do Pescador)


Começou o mais alto possível. Ronen, de Tel Aviv. Seu perfil não gritava "Estou à procura do amor", mas sussurrava com confiança: "Sou um intelectual atormentado à procura da musa que compreenda meu gênio". Inteligente, perspicaz e sarcástico na medida certa para me fazer sorrir como um bobo diante da tela.


As conversas com ele? Esqueça o "Awake?" às 2 da manhã. Estamos falando de maratonas de duas horas e meia, conversas profundas noite adentro sobre o sentido da vida (principalmente a dele, mas quem se importa?). Ele construiu um personagem à la Tony Stark israelense: um homem do mundo, um inventor, um magnata com negócios na Islândia (obviamente, porque Petah Tikva não é exótico o suficiente) e um aventureiro que conhece pessoas que a maioria de nós só vê na National Geographic. Ele era o cavaleiro no Tesla branco, e eu? Eu era a princesa na torre, só esperando alguém com um carregador rápido.


Ele sabia como me tocar. Sou romântica? Mandava músicas pelo WhatsApp. Gosto de comida? Recebia uma descrição erótica de "massa com concha" em um longo prato que ele prepararia


Ato Dois: Falhas na Matrix


Mas, como em qualquer novela turca, as coisas começaram a desandar. Havia algo... como dizer? Agressivo, mas disfarçado de "humor refinado que você simplesmente não entende". Seu apelido favorito era "Garota Polonesa", e ele soltava frases que fariam meu psicólogo chamar uma ambulância. Quando perguntei o que havia de errado, ele explicou que eu simplesmente não estava no mesmo nível intelectual que ele. Pérolas como: "Sou completamente ferrado, mas positivamente ferrado" (existe um animal assim? Tipo colesterol bom?) ou "Quem tem medo é estúpido... desculpa, hahahaha". Desculpa por quê? Por ser assustador a ponto de parecer de filme de terror?


Ele controlava o ritmo do relacionamento como um pequeno ditador na Coreia do Norte. Desaparecia por horas e depois voltava com desculpas grandiosas que faziam "o cachorro comeu minhas lições" soar como um depoimento juramentado. Dikla, a amiga que é basicamente minha intuição externa quando o estagiário está de folga, pressentiu algo estranho. "Parece suspeito", escreveu ela. "Alek" se encontrou com um CEO... Pesquise sobre ele no Google." Mas eu estava ocupada demais apaixonada pela ideia do amor.


Ato Três: Sala de Conferências da CSI


Quarta-feira. Reunião de equipe. Oito pessoas discutindo procedimentos tediosos que fariam até a cafeína cair no sono. O telefone vibra. Ronen. Mais um cancelamento. Mais uma desculpa esfarrapada sobre uma viagem urgente que ele "acabou de descobrir". Algo dentro de mim estalou. Talvez fosse o cansaço, talvez a intuição que despertou do nada, e eu mandei uma mensagem para ele meio que brincando: "Ei, Ronen, você tem certeza de que não é algum golpista do Tinder na versão AliExpress 😜? Acho que preciso te dar uma olhada." Ele respondeu com a confiança de quem se acha Deus: "Tá bom... manda ver."


Então, me joguei de cabeça. Enquanto meu CEO falava sobre padrões de qualidade, eu estava administrando uma casa de apostas clandestina. Uma busca no Google, um Enter, e meu queixo caiu. Uma manchete enorme passou diante dos meus olhos. Caí. Não apenas caí, mergulhei de cabeça no covil de um verdadeiro golpista, com recibos, artigos e fotos. O homem que me escreveu poemas sobre borboletas é um golpista em série. A "escrita obsessiva"? Não é romance, é um método de trabalho.


Olhei ao redor da sala de conferências. As pessoas falavam sobre trabalho, sobre a vida normal, e eu segurava um dispositivo na mão através do qual mantinha um caso virtual com um impostor patético que se achava o rei do mundo. Naquele momento, entendi tudo: os cancelamentos, os desaparecimentos, o "trabalho intenso no instituto" — tudo não passava de um grande espetáculo.


Análise post-mortem (ou: Como diabos isso aconteceu comigo?)


Como eu, Yael, caí nessa armadilha? Muito simples: narcisismo maligno encontra um transtorno de personalidade borderline com o carisma de um pregador religioso. Ronen me "bombardeou de amor", segundo o livro. Ele identificou exatamente o que me faltava — intelecto, romance, alguém que me "enxergasse" — e se tornou exatamente isso, como um camaleão emocional sob efeito de anfetaminas.


Ele não estava procurando amor, estava procurando uma vítima. Estava procurando alguém para inflar seu ego (e talvez mais tarde sua conta bancária). A frase "Eu sou um fodão positivo" ecoa na minha cabeça. Ele realmente me disse a verdade na minha cara, e eu achei que era poesia moderna.


Fim do assunto


Eu o bloqueei imediatamente.

Não disse uma palavra, não exigi explicações. Simplesmente me desvaneci no silêncio digital, deixando-o a se perguntar se eu o havia invadido ou se simplesmente havia sido abduzido por alienígenas (a última opção, de repente, faz mais sentido para mim).


Conclusão? Quando alguém parece bom demais para ser verdade, provavelmente é um golpista do Tinder vivendo em um filme onde ele é o diretor, o ator e o único espectador. Quando ele se autodenomina um "cavaleiro em um cavalo branco", não pense em Richard Gere. Pense mais em alguém como Simon Leviev, só que sem o jato particular.


Desta vez não há "próximo passo". Preciso de um longo banho, um pouco de sálvia queimada e talvez um exorcista.



Até a intuição de uma bruxa precisa de óculos às vezes.
Até a intuição de uma bruxa precisa de óculos às vezes.

 
 
 

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