Capítulo 14: O naufrágio do Titanic e o homem que era "Molécula"
- 5 de dez. de 2025
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Há momentos no Tinder em que você se sente como uma pessoa sem-teto implorando por atenção, e há momentos — raros como um eclipse solar — em que você se sente a rainha da turma. De repente, do nada, surgiu um "ménage à trois". Não, não
A equipe era composta por:
Roy, que tinha acabado de voltar de um retiro no Himalaia, não se conectou muito bem conosco.
Nimrod, o golfista: Um homem do mundo, interessante. Nos encontramos para um café. Foi agradável. Ponto final.
Lior (a joia da coroa): Ah, Lior. Falaremos sobre ele.
Lior: A Fantasia Marinha
Lior veio do "Alpha", o site para acadêmicos, o lugar onde os homens devem ser tão refinados quanto um vinho envelhecido em barris de carvalho (e não como leite azedado pelo sol). Seu perfil era intrigante: divorciado e viúvo, morando em um iate na marina. Um iate! Imediatamente imaginei nós dois navegando rumo ao pôr do sol, bebendo champanhe em frente às ondas, eu com um chapéu de aba larga e ele com um chapéu de capitão amarrado.
Ele estava em viagem ao exterior quando começamos a trocar mensagens. A distância, como sabemos, é o melhor combustível para fantasias. A correspondência era intensa. Ele era eloquente, poético (talvez até demais?) e transmitia profundidade. Quando conversávamos sobre a situação em Israel, ele me escreveu a seguinte frase imortal:
Ele era um "homem de tato" (uma declaração anterior no WhatsApp). Ama música. Como eu. Trocamos músicas. Enviei Shiko Buarki e música brasileira (minha alma), e ele? Respondeu secamente:
O encontro: 7 de outubro e a ilusão
Ele desembarcou em Israel no dia 6 de outubro. Uma coincidência marcante. Nos encontramos no dia seguinte, no aniversário do massacre. Havia algo simbólico, pesado e comovente nisso. Ele veio até mim. Estava bem. Considerando a idade, claro. Olhos azuis, mãos de trabalhador (afinal, lavava o convés). Houve uma conexão. Parcial. Não levou mais de meia hora e ele sugeriu que nos deitássemos perto um do outro e ouvíssemos música juntos. Sem dizer uma palavra. Eu adormeci. Em algum momento, ele voltou correndo para o convés e eu caí num sono profundo. Em 90% do tempo em que ele esteve na minha casa, ficou em silêncio. Um silêncio constrangedor e opressivo. Tentei com todas as minhas forças preencher o espaço paralisante entre nós, mas acho que eu estava falando mais sozinha.
A Queda: Da Molécula ao Autômato
Então eu entendi. Assim que a distância física desapareceu e nos tornamos pessoas reais, a um passo de nos tocarmos, Lior se tornou um robô. As mensagens se transformaram em telegramas lacônicos. "Bom dia." "Boa noite." "Como vai você?" Onde estão as conversas profundas? Onde está a poesia? Onde está a complexidade? Tentei iniciar uma conversa. Enviei poemas, enviei pensamentos. Em troca, recebi um ou dois emojis. Ele se tornou uma "barba". Enviando manchetes sem conteúdo.
Comecei a sentir o vazio. Escrevi para ele:
A resposta dele? Um contra-ataque.
Reciprocidade! A palavra favorita dos homens que não investem um centavo emocional. "Por que você não está ligando?", ele perguntou. Por que eu não estou ligando? Porque você está me drenando há quatro dias com mensagens automáticas no Telegram!
A Última Chamada: O Grito e a Desconexão
Terminou com um telefonema. Tentei explicar que precisava de comunicação, interesse, emoção. Ele? Não entendeu o que eu queria da vida dele. Para ele, bastava ter mandado um "bom dia", então estava tudo bem. O tom de voz foi se elevando. Ele, o homem "sensível" da marina, mostrou-se ter um pavio muito curto. Gritou. Ficou bravo. Não conseguiu conter nenhuma crítica ou pedido por proximidade real. Então, no meio da minha frase, fez a coisa mais madura e cavalheiresca que já vi: desligou o telefone na minha cara.
Desligou. Bum. Fiquei com o telefone (metaforicamente) na mão, atônito. O homem que escreveu sobre "tecido humano" se comportou como um valentão de rua.
Resumo: O Naufrágio do Titanic (Emocionante)
Lior voltou para seu iate (que na verdade pode ser um pedalinho, quem sabe). Eu fiquei na margem, seco, mas pelo menos não me afogando em um mar de indiferença e manipulação.
Conclusão: Homens que vivem em iates estão acostumados com tudo em movimento e oscilação. Eles não foram feitos para uma base emocional estável. E aqueles que se definem como "moléculas" acabam sendo apenas ar quente.
Próximo.




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